"E na clareza das palavras o mundo se fez entender..." (Victor Ferreira)

domingo, 21 de novembro de 2010

Nada demais vai acontecer

A história que aqui segue é real* e fez parte do baú de tesouros que descobri nos 7 meses de trabalho no H. I. Varela Santiago, instituição que me permitiu crescer sem freios como ser-humano, como cidadão, como espírito.
Muito embora esteja dotada de muita religiosidade, visto que esta era uma característica marcante do personagem que a ilustra, a magia que havia nele está longe de ser classificada como qualquer coisa criada pelos homens.
Embarquem na história mais impressionante que eu já ouvi. E mais, que eu tive o presente de conhecer quem a vive. Boa leitura!

*Os nomes são fictícios


9h15. Terça-feira. Lá fora o dia era de sol. O calor tomava conta do pátio do COHI (Centro de Onco-Hematologia Hospitalar), e eu, já aborrecido, esperava há 15 minutos por uma reunião que atrasara, quando Eduardo, o protagonista dessa história, pendurou o soro no suporte que se encontrava em frente ao conjunto de cadeiras no qual eu estava sentado, acomodou-se, e falou com a voz embargada:

- 45 dias.


Meu rosto enrubesceu e uma vergonha que nunca havia sentido antes tomou conta de mim. Vergonha de mim mesmo.


Como considerar justificável o incômodo que eu sentia há pouco menos de meia hora por ser contrariado no horário marcado para a reunião tendo ali, ao meu lado, com o espírito resignado, mas cheio de determinação, um jovem que naquele mesmo dia completava 45 dias de isolamento dentro de um hospital, quebrado exceto com as visitas que fazia ao H. U. Onofre Lopes, para submeter-se aos procedimentos de hemodiálise? Eduardo há 3 anos fora acometido por um tumor na bexiga.


Como considerar justificável o incômodo de alguém saudável, que estava no ambiente de trabalho, fazendo a "máquina da sociedade" funcionar e que mais tarde voltaria para casa e encontraria ao seu dispor o suprimento de quaisquer necessidades afetivas ou materiais, tendo ali, ao meu lado, um jovem de idade aproximada, sofrendo as conseqüências do processo de quimioterapia, assegurado de soros, sondas e fraldas descartáveis, e com a mãe desempregada? Tal vergonha me roubou as palavras. Eduardo, numa sabedoria já pertinente, percebendo minha falta de graça, prosseguiu:

- Cada vez que eu me interno é uma experiência nova. Nessa, eu vi que é necessário tomar água. Mas que venham as próximas. Se Deus me trouxe isso, deve haver seu propósito.


A observação poderia ser um clichê. Um clichê de consolo. Sobretudo de fé. Que embora verdadeiro, nem sempre condiz com a revolta e a tristeza que moram no coração do falante. Mas nas palavras de Eduardo brotava uma espiritualidade que durante mais 2 horas fizeram-me não mais me sentir aqui, perto dos demais. Sem sombra de dúvidas, Eduardo não era mais um.

Procurando descontrair o papo e ser o mais natural possível, muito embora fosse impossível não perceber o meu deslocamento, perguntei-lhe sobre a sua namorada. Como se não bastasse, o namoro que há pouco mais de 1 ano Eduardo sustentava também era recheado de problemas. A família de Cristiane não aceitava o fato da moça namorar com um "doente", com um rapaz que sequer poderia ter filhos. Chegando a ameaçar a moça caso esta mantivesse o relacionamento.

- Hoje completamos 1 ano e 3 meses. Mais tarde ela vem me visitar. Veio todos os dias – Eduardo exclamou.
Para passar o tempo, propus que escrevesse uma carta à moça. Adiantei-me e peguei papel e lápis. Escreveu. Em suas entrelinhas, agradecia o apoio, agradecia por amar-lhe do jeito que ele era e prometia um amor eterno. Na verdade, tudo que viesse de Eduardo não podia pertencer ao mundo carnal.

Convidou-me para ir ao seu leito e mostrar alguns escritos que havia produzido no período de internação. Ajudei-lhe com o soro e fomos até a enfermaria. Chegando lá, deitou e pediu que eu apanhasse o caderno que estava sobre a cadeira. A cadeira que também apoiava um gibi e um livro de biologia. Achei curioso este último, visto que em detrimento da doença tivera que abandonar a escola. Perguntei-lhe o porquê de ler aquela apostila.

- Quero fazer a faculdade de medicina. Quero ser doutor e trabalhar aqui, no hospital.

Levei o caderno à cama e as palavras que dalí saíram me tocaram com tamanha profundidade. Na primeira página, estavam dispostas bem assim:

“Deus. Quero te agradecer porque em 2008 tu me tiraste da cama e me fizeste nascer de novo. Muitas vezes ainda não sei como agradecer. Mas agradeço pelas dores. Pelas sondas. Pelas cirurgias e pelos sangramentos. A missão não terminou.”

Qualquer pessoa que não conhecesse o jovem e recebesse aquele caderno, acharia que a ironia e a revolta embalavam aquelas palavras. Agradecer essa tempestade de sofrimento? Como assim? Resolvi prosseguir na conversa.
- É que eu não posso desistir. Se há 2 anos Deus me trouxe quase 2 meses de UTI e não me trouxe a morte, porque traria agora? Eu vou até o fim.

E parecia bem coerente o seu pensamento. Em 2008 Eduardo fora desenganado pelos médicos. Enfrentou um coma de 18 dias e ao acordar só reconhecia a mãe. Não detinha os movimentos nem conseguia falar.

- Lembro que quando não conseguia falar, pedia minha voz de volta. Eu queria louvar. Eu queria pregar.

Em troca, Deus, a divindade que Eduardo entregava e resgatava forças, devolveu-lhe uma voz que hoje comanda o microfone da banda que o rapaz faz parte. E presente muito bem utilizado. O jovem a utiliza para no mínimo dar conforto às pessoas com quem convive.

Na página seguinte, outro escrito me chamou atenção:

“Deus, te apresento Guilherme. Quero vê-lo saudável como as outras crianças. Tem misericórdia de sua humilde vida.”

Guilherme era uma criança de 6 anos portadora de leucemia e que há 3 meses se encontrava em estado grave, internado. Perguntei a Eduardo se diante de tanto sofrimento ainda sobrava tempo para pensar nos outros. A enfermeira que trocava o seu soro naquele momento, apressou-se em responder:

- Ora se não! Antes de ontem, sangrando, ainda teve força para confortar a mãe de Ítalo.
Em tal situação, Eduardo, mesmo em crise, houvera chamado a mãe da criança em seu quarto, orado e cantado para ela. Na letra da canção, falara algo mais ou menos assim:

“(...) porque nada demais vai acontecer além do que Deus planejou para você...”

Horas depois Ítalo veio a óbito. Mas suas palavras, sem dúvidas, fizeram a diferença.

Eduardo tentou melhor se acomodar na cama e o lençol com que se enrolava descobriu a fralda descartável. Fiquei constrangido. E mais uma vez, na sua naturalidade fora do comum, ele gargalhou, e embora já sabendo a resposta, perguntou:

- Que é que foi?

- Como você ver o fato de hoje estar usando uma fralda descartável? – perguntei, desarmado.

- Já esqueceu das surpresas de Deus? – retrucou.

Franzi a testa. Respondi.

- É que nunca quando pequeno tive condições de usar fraldas descartáveis. Mas olhe como são as coisas. Hoje, com 16 anos, eu posso vestir uma!

Rimos. Eu realmente não mais estava no mundo real. E já que havia citado sua infância, pedi que me falasse sobre ela.
Eduardo era um dos 7 filhos de Nívea, 45, lavadeira, embora desempregada. Começara a trabalhar aos 6 anos, como engraxate. O trabalho entretanto não fora motivo para deixar de estudar. O que realmente lhe fez aos 14 anos largar a escola foi a doença, que começou com uma dificuldade para urinar. Internou-se no H. Santa Catarina, e uma ultra-sonografia identificou a profunda massa que ocupava sua bexiga.

Quando indagado sobre a imagem que o Varela representava para ele, o jovem não mais me surpreendeu:

- Luz. Muita luz. Tudo que a gente quer, se estiver no alcance deles, eles fazem por a gente.
Ainda quis saber se havia alguém que lhe tivera marcado no tratamento. E quando eu achava que Eduardo já havia me apresentado todos os valores mais nobres existentes no universo, ele ainda lembrou da gratidão.

- Muita gente. Mas Gisele, que hoje é enfermeira do Pavilhão 2, foi muito especial para mim. Lembro que quando ainda não tinha descoberto a doença, pedia ajuda, ela vinha, cantava hinos religiosos e alisava onde estava a dor até eu dormir. Até hoje, quando vem me visitar, faz uma grande festa.

Papo vai. Papo vem. E o estado de ecstasy mais se elevava. O tempo passava e sem me tocar, havia perdido a reunião. Depois de tanto aprendizado com Eduardo, impossível não pensar de imediato que havia sido providência de Deus. O relógio já marcava 10:50, quando a mãe do meu amigo chegava. A cumprimentei, parabenizei o fato de ser mãe de uma criatura daquelas e ela falou o que eu já imaginava saber.

- Ele tem a força de todos nós juntos.

Concordei com a cabeça. Eduardo interrompeu e pediu que a mãe buscasse na bolsa uma foto de seu estado em 2008, abatido, careca (muito embora ainda estivesse) e pesando seus míseros 34 quilos. O retrato era chocante.

- A gente anda com essa foto para dar força às pessoas que estão em tratamento. Eu sei que ainda estou doente, mas olhe como eu já estive.

Atrás da fotografia, as palavras de Eduardo: “Deus fez um milagre em minha vida”

E fará muito mais. Perguntei sobre os seus planos para o futuro e ele não hesitou:

- Depois que ficar doutor e vir trabalhar aqui, quero casar com Cristiane e ter filhos. Sendo que o doutor ainda está em dúvidas se eu posso ou não ter filhos por causa da radioterapia. Mas sem problemas. Eu posso ser pai. Posso adotar. – Riu. Para Eduardo não existiam problemas.
A porta do quarto se abriu e a médica trazia a notícia de que o meu amigo receberia alta. Ele sorriu e agradeceu a Deus. Comentei com ela sobre a minha admiração e ele nos interrompeu:

- As pessoas precisam valorizar a vida. Já pensei em desistir, mas parece que há uma força maior que eu. Eu nunca fui um menino de desistir fácil. Mas você saber que tem uma doença e que a qualquer momento pode morrer não é simples. É só acreditando e tendo a certeza de que há um controle maior que o seu que as coisas podem se confortar no seu coração. Se eu não tenho fé em Deus, eu não tenho esperança.

Saí daquele quarto tão desnorteado quanto um astronauta que passa 3 meses no espaço e pisa na terra pela primeira vez. Não sabia se agradecia a Deus por ter me presenteado com uma manhã daquela ou se sentia mais e mais vergonha por tantas vezes que julguei como problemas algumas meras situações que passava. Conhecer Eduardo fora, nos meus 18 anos, um dos momentos mais marcantes, e que sem dúvidas, me servirá de lembrança e de força para o resto de minha vida.
Quase 2 meses depois da conversa, Eduardo marcou uma celebração religiosa no hospital. No dia anterior ao evento, internou-se de emergência e para nós, os demais seres-humanos, aquilo seria impedimento. No outro dia, com sonda, soro e dor, Eduardo fez questão de celebrar o que tinha marcado. Cantou. Falou. Orou. A sonda até vazou e o incômodo lhe envolveu, mas ficou lá, em pé, fazendo o que mais amava. Envolver de luz quem naquele momento também precisava. Mães e crianças enfermas acompanhavam. Médicos. Enfermeiros. Psicólogos. ASG´S. A equipe inteira teve o privilégio de ver, naquela manhã, a manifestação de uma força. Fosse ela Deus, fosse ela qualquer outra divindade, fosse ela o destino, a ciência ou a natureza. Mas uma força que sem dúvidas, existe.

Terminado o culto, Eduardo subiu para o quarto e a crise aumentou. Dias depois, foi transferido para o H. U. Onofre Lopes e lá está até agora, já há mais de 1 mês. Na UTI, recebendo sangue e sendo submetido a procedimentos cirúrgicos. E todas as vezes que meu coração aperta, suas palavras me vêm à cabeça:

“Nada demais vai acontecer além do que Deus planejou para você...”

Muito obrigado, amigo!

12 comentários:

Anônimo disse...

Muito edificante, amei. Tudo é permissão de Deus mesmo!

Por: Deyze

Rebecca disse...

Interessantíssimo, Victor. Parabéns pelo texto.

O que você faz no Varela Santiago?

Gostei também do texto "Identidade, por favor!". Me identifiquei muito!

E sim, essa lei das 22h nos pubs é um saco.

Foi muito bom ter lhe encontrado na sorveteria!

Um abraço,
Rebecca Pelágio.

Angelina disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Angelina disse...

Adooorei o post, chorei litros lendo isso, vou postar no meu twitter agora mesmo. =) Mas aumente essa letra pelo bem da saúde dos olhos de sua amiga querida. Te amo querido, você tem o dom das letras ;)

Muitos beijos, sua Nena :*

Anônimo disse...

Victor!
Fiquei muito emocionada ao ler esse post. Deus é perfeito!
E como diz na Palavra dEle, o Senhor não nos dá NADA que não possamos suportar!Glória a Deus pela vida do "Eduardo", e pela sua vida na minha tb!
Beijo amigo!
Vanessa Laís.

Amanda Câmara disse...

Victor,
após ler esse texto tem um misto de emoções dentro de mim, esperança, arrepio, ... Enfim, me emocionei com o texto. Belíssimo e muitas vezes, apenas precisamos de simples textos como este, para agradecermos e vermo como nossa vida é boa, e nossa fé é pequena diante de um ser que tem tanta alegria pela vida. Afinal, tudo é providencia de Deus, e como você mesmo disse “Nada demais vai acontecer além do que Deus planejou para você...” E eu acredito que isso seja verdade. Parabéns!

keriny brito disse...

Victor, meu amigo
Fiquei feliz por também como vc ter sido testemunha deste dia e de ter tido as mesmas impressões suas, realmente uma lição de vida.
Parabéns por compartilhar com demais esta história.

Rosa Virgínia P. do Rêgo disse...

ACHO QUE VIVENCIEI ESSE CULTO. SEM PALAVRAS... INTENSAMENTE EMOCIONADA E TOCADA, PORÉM AINDA COM MUITOS MEDOS. PERDÃO.

Anônimo disse...

A frase dele nos diz tudo, inclusive a missão dele, quantos ensinamentos este jovem nos dá através do sofrimento, olhem com que grandeza ele ve tudo.,
Luciano Rocha

Conceição Martins disse...

Essa história do Eduardo me comoveu bastante! E como você descreveu fez com que eu me sentisse também presente na narrativa. Realmente, nós temos que agradecer todos os dias a benção da vida! Maía.

arthur disse...

O texto é recheado de esperanças e reflexões sobre o valor que cada pessoa dar a vida.Cada parágrafo acompanha emocionantes pensamentos de fé.Não tenho adjetivos para descrever a situação de sabedoria na qual você vivenciou.Aquele abraço.Panda.

Anna Paula Dionizio disse...

caramba, me arrepiei. uma história muito emocionante e muito bem contada.