"E na clareza das palavras o mundo se fez entender..." (Victor Ferreira)

sábado, 3 de julho de 2010

"A Identidade, por favor!"


Dentro do meu repertório de sonhos, eis então um que não era tão alto. Bastava ter ao meu favor tempo, para o dia chegar, Deus, para que eu pudesse chegar até ele, e calma, para conseguir esperar. Ser maior de idade! Poxa! MAIOR de idade! É isso! Eu sou responsável, agora judicialmente, por todos os meus atos.

Acordei cedo. A propósito, como essa data há muito já havia sido planejada, cuidei da logística das coisas. Procurei não fazer a barba, comí as panelas para reduzir essa aparência desembrutecida e, como quem não quer nada, encontrei-me alí, de frente ao espelho. "Eu tenho cara de um MAIOR de idade? O que mudou tão intensamente em mim para que entre a noite de ontem e a manhã de hoje eu não seja mais o mesmo?".

A singeleza desse sonho pode ser comparada a um mosaico. É como se eu juntasse pedaços e mais pedaços de pequenas situações, aparentemente sem muita importância, e resultasse num quadro que só mais aumentava a minha ânsia pela espera desse dia. Não entenderam?

"Bom dia! O senhor já possui o Cartão Riachuelo?". Ao escutar a célebre frase, batia-me um misto de sentimentos. Alegrava-me pensar que aquela vendedora, cuja proposta era fazer um contrato com um indivíduo MAIOR de idade, oferecia-me o cartão. Ou seja, para ela eu parecia estar dentro dos critérios para a efetuação da venda. Por outro lado, uma reparável tristeza contrastava com essa alegria. Não que o motivo fosse deixar de ter o cartão para realizar as compras. Nesse aspecto os meus pais me salvariam. A tristeza era ter que responder e, principalmente, lembrar, que não podia efetuar o contrato porque a minha idade ainda não permitia isso.

Situações do tipo eram rotineiras, tornaram-se comuns. Mas no verão deste ano, um caso especialmente me enfureceu. Era o dia 20 de janeiro, quarta-feira, às 22h, hora em que a noite começa a acordar, e conversava com Lissa, minha prima, num pub da cidade, quando um garçom nos chamou a atenção. "Por favor, poderiam-me apresentar algum documento de identidade?". Entreolhamo-nos assustados. De início, a idéia da menoridade não passara nem perto de nossas cabeças. Será que a polícia nos procurava? Estavam nos confundindo com algum foragido da justiça? Eu? Lissa? Nós? Pus a mão no bolso e só me restava o celular, o dinheiro e um cartão que, por sinal, não era da Riachuelo. Tratava-se do cartão de consumo do bar. Lissa, contudo, na mesma. "Não estamos com nenhum documento, colega. Algum problema?" perguntei pacificamente. "Sim! A partir das 22h a casa não permite a permanência de menores de 18 anos sem que estejam acompanhados de algum responsável.", ele respondeu, rasgando-me por dentro como quem corta rodelas de tomate de uma só vez. "Como assim? Você está querendo insinuar que nós somos menores de idade?" respondi, esquecendo a passividade. Pisaram no meu calo! "Não, meu senhor...". Gostei do "senhor"! "É que preciso que vocês me comprovem que possuem idades realmente iguais ou maiores que 18 anos.", ele rebateu. "Ah, é? Então você vai passar de cliente em cliente, perguntando, inclusive , pro senhor da mesa à frente, se ele está com o documento de identidade?", insisti. Lissa me olhou desolada e vi que não adiantava persistir na batalha. Eu mesmo estaria cavando o nosso buraco. Fomos ao caixa e pagamos a conta, exigindo não pagar o couvert, visto que o show mal acabara de começar. E como se o constrangimento não bastasse, vimo-nos no meio da rua, sem simplesmente ninguém para nos levar em casa. A família inteira veraneava naquele momento, bem longe da gente. Olhamos para um lado. Para o outro. Nos olhamos. Dei um sinal. Largada a corrida! 3 minutos de uma maratona 500 km/h, rezando incessantemente a cada passada. Cruzamos a Prudente, atravessamos a celestial Praça Cívica, e, aliviados, chegamos em casa. Lissa, ainda sem fôlego, exclamou "Ufa! Nascemos de novo!". Tomei um susto, desesperei-me e rebati "Não! Pelo amor de Deus! Mais 18 anos não!".

Ter a compainha de meus pais na hora de assinar qualquer contrato também foi uma constante. Mas isso, ao contrário, jamais me incomodou. Nesse aspecto, toda a problemática se contrasta. Pois se a condição para tê-los alí, ao meu lado o tempo inteiro, fosse ser menor de idade, eu, sem dúvidas, abriria mão da maioridade. Não que me sinta alguém dependente. Independente também não. O que acontece é que essa responsabilidade me garantia a presença permanente deles. Mas bem os conheço e sei que embora agora eu seja realmente responsável pelos meus atos, eles continuam aqui, ao meu lado. Eles continuam aqui, dentro de mim.

Acompanhar-me ou pelos menos procurar compainhas mais maduras sempre foi uma de minhas caracteríscas. Nunca, em momento algum, estive completamente satisfeito com minha idade e é por isso que o sonho dos 18 anos acabou se agigantando. Vou, por fim, aproveitá-lo. Aproveitá-lo enquanto posso, pois me conheço e sei que não tardará para os 21 estarem nos meus planos. Os 25 em seguida. Os 30, logo após. Os 35 ainda vão. Os 40, menos sonhados. E depois... a vontade dos 14, 15, 16 e 17 finalmente aparecerá. Eita! Bateu uma nostalgia agora...

Enfim, agora, MAIOR de idade, vou fazer jus ao sonho. Passarei milhões de vezes pela porta da Riachuelo, escutarei milhões de vezes a vendedora perguntar "Bom dia! O senhor já possui o Cartão Riachuelo?", e milhões de vezes responderei "Não. Não tenho o cartão da loja. Mas não é que eu seja menor de idade. Não! Eu tenho 18 anos! É que estou um pouco ocupado agora. Vou assinar a um contrato, depois preciso ir à auto-escola, e depois vou àquele Pub que a partir das 22h só permite MAIORES de idade. Fica para depois, certo?"

8 comentários:

Amanda Câmara disse...

Simplesmente, a cada dia que passa eu só me torno mais sua fã do que eu já eu sou! Amei o post, e já sou MAIOR de idade há algum tempo e nunca tinha pensado por esse lado. E seus textos, cada vez estão mais ímpares!!

Mariana disse...

sinto o mesmo que ti!^^
adorei o post! o/
bjus

helmercia disse...

Adorei.
Sinto o mesmo. Mas em breve também terei os meus 18.

Carlos Henrique disse...

Parabéns Victor pelo comentário,já passei por essa fase a muito tempo.

Láh disse...

Realmente com 18 anos vc tem um monte de direitos,
porem tem que viver coma tenção em dobro.
bju

hugo disse...

ficou ótimo até eu agora espero mais anciosamente pra chegar nessa idade kkkk parabéns

Anônimo disse...

vc qm escreve?

Rosa Virgínia P. do Rêgo disse...

OI!
VICTOR,

ADOREI!!!

BJOS, BJOS, BJOS...