"E na clareza das palavras o mundo se fez entender..." (Victor Ferreira)

terça-feira, 6 de abril de 2010

Falta sentido

"...Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção..." (Oswaldo Montenegro)

Desde que criado, o universo vem sendo berço de mudanças que mantêm viva a sua dinâmica. O mundo se adapta incessantemente às novas condições sem que haja um limite para as descobertas.

O tema é bem sugestivo se relacionado ao último artigo que aqui publiquei, onde tratei de uma mudança pela qual passei. Entretanto, não foi ele que me inspirou. Dias atrás, uma notícia me chocou e provocou até demais. A provocação não foi de reflexão, mas de absoluta repulsa. O Diário de Natal publicara a notícia de que um performer (artista que trabalha com a arte performática) houvera, durante a abertura do XIII Salão das Artes da Cidade do Natal, realizada no Nalva Melo Café Salão, retirado um rosário do ânus. O incômodo, primeiro, foi por saber que a arte, criada para progredir e elevar o intelecto do nosso povo, vem sendo instrumento de regressão. Depois, por ser artista, e reconhecer que dentro de nossa classe há tamanha barbárie. De ante mão, vale ressaltar que o que aqui escrevo nada faz referência ao artista que executou o trabalho, mas ao resultado que essa forma de expressão artística e a manipulação da arte contemporânea, em geral, vêm trazendo. Melhor, não trazendo...


Qual grande transformação ocorreu na nossa sociedade de forma instantânea e drástica? Qual foi a revolução que se deu do dia para a noite modificando realmente e totalmente o ser-humano e o meio no qual estivesse envolto? Nem Napoleão, na inovadora e gigante Revolução Francesa, mudou o sistema num piscar de olhos. Havia, antes de tudo, toda uma bagagem que tornava favorável a mudança e esta, antes de mais nada, era coerente. Ou seja, o que quero dizer é que não há transformação sem singeleza. Não é de forma brusca que uma lagarta vira borboleta.


A Performance tem origem ligada a movimentos de vanguarda. As apresentações, inusitadas, procuram levar o público a uma reflexão, em geral sobre os valores modernos, e não poupam irreverência e questionamentos. Há no artista contemporâneo uma crítica de si mesmo, de maneira que se generalize, visto que ele pertence a uma sociedade. Na arte dramática, este chega a construir meios-personagens, numa mistura que confunde e mal-delimita, em cena, quem é ator e quem é personagem. Acredita que essa proximidade íntima com a sociedade moderna possa levá-la a uma reflexão. De primeira instância, louvável, visto que se faz necessária a revisão dos valores distorcidos. O que está acontecendo, entretanto, é que em vez de permitir tal reflexão, as manifestações só confundem, chocam e afastam o público do teatro.


De que maneira vamos conseguir uma platéia viva e satisfeita se não procurarmos usar de sua linguagem? Se não procurarmos colocar a reflexão como conseqüência de nosso trabalho e não como condição para que ele seja feito? Porque não usar do humor? Porque não usar da clareza? Porque não usar da leveza? Isso! Leveza! Um público que vai ao teatro já tem por si só as tensões do dia-a-dia. Entrar numa sala de espetáculos e se ver tensionado por cenas confusas e incoerentes é demais! Paciência! Queira sim, queira não, a arte é um comércio. E se não o público, quem nos sustentará? A própria classe?


Não é a toa que os espetáculos de humor, as boas histórias e os grupos conceituados lotam os teatros de nossa cidade. Público nós temos sim! O que falta é uma compreensão para com esse público e uma vontade de chegar até ele.

Não me interpretem mal, por favor. Não estou dizendo que devemos manter os valores perdidos e agüentar calados as aberrações da sociedade sem usar da arte como um meio de protesto. Jamais! Seria uma crueldade, visto que é do artista ser engajado. O que eu ponho em questão é a forma como fazemos esse protesto. Se o envolvermos de doçura, bom-humor, leveza e, principalmente, entretenimento, chegaremos a uma resposta muito mais rápida e lucrativa. Para o público, um programa realmente agradável. Para o artista, admiração e apreço ao seu trabalho.

6 comentários:

Tales Santana disse...

A idéia principal do texto é a falta de coerência com as "normas" da nossa sociedade ou o mal uso de um evento, que por consequência afeta diretamente a parte econômica que o teatro (e vertentes) gira diante de um público alvo pré-moldado?

Thi disse...

O artista de alguma forma é um elemento de grande impulso na sociedade, são por meio deles que se lançam moda, fetiches ... Vale a pena o artista inovar em seus atos dramaturgicos? Sim,porque não inovar? Inovar é ótimo, traz renovação tanto pro espetáculo como ao público que está vendo, embora devemos tratar de cuidado na hora de escolhermos essa "inovação". O público quer decência, quer moral, que ética, que sacanagem, mas com proeza, que talvez seja o elemento principal na hora de inovar, Artista eis meu apelo: Sejam inovadores do conhecimento que Deus deu a vocês, usem e abusem de sua criatividade, mas vejam a proesa com dinâmica!

Andróide sem par disse...

Quando fiquei sabendo da performance(lembrando que performance não é um comércio) fiquei sem crer que algo tão significativo tivesse acontecido nessa cidade careta, acredito que como evento vindo da arte performática a ação do Pedrox, sim o performer tem nome, causou reflexão(indireta ou diretamente) esse texto que vc escreveu é a prova disso. fato.

E outra já ouviu falar na bomba atomica? entao, ela mudou as coisas bem rapidinho.

vc começou com uma citação eu termino com outra:

…)idéias claras são idéias mortas e acabadas (...) apresso-me em dize-lo desde já, um teatro que submete ao texto a encenação e a realização, isto é, tudo o que é especificamente teatral, é um teatro de idiota, louco, invertido, gramático, merceeiro, antipoeta e positivista (…)

Andróide sem par disse...

citei ARTAUD ^^

Tales Santana disse...

Eu, pelo menos, já cansei do entretenimento-que-se-preze das últimas coisas que o teatro me ofereceu. Preciso gostar ou não gostar de algo, assim, com certeza. Entende?

claudia disse...

muito bom