"E na clareza das palavras o mundo se fez entender..." (Victor Ferreira)

quarta-feira, 24 de março de 2010

A mim, um presente.


Nunca foi de meu repertório, muito menos interesse, discutir religião, crença, cultos ou ícones, visto que vejo a fé como algo superior a tais pontos e pouco dependente deles no ponto de vista espiritual. Entretanto, venho hoje compartilhar uma vivência. Um testemunho? Será? Pretendo que não! Não confundam! Acredito que a descoberta de forças maiores é algo que vem de dentro e o que tenho a lhes falar é somente uma partilha.

Há pouco mais de 1 mês, o relógio marcava os últimos minutos do sábado e eu vagava pela internet quando a chamada para a audição de elenco do espetáculo "A Paixão de Cristo" me apareceu entre tópicos numa comunidade do Orkut. O teste aconteceria às 8h do dia seguinte. Sem muita perspectiva, programei o despertador.

Domingo. Nenhum som me desperta. Às 8:15h acordo, olho o relógio, e vejo que o melhor a se fazer é continuar a dormir. A chuva escorre na janela e um sono enorme me convida à cama. Durmo. Volto. Uma força muito maior me move à tomar banho, arrumar-me e ir pegar ônibus na parada mais próxima. A água não permite. Sem problemas, meu pai acorda e se dispõe a me deixar.

Na audição, encontro poucos amigos e inúmeras pessoas enturmadas e pertencentes à comunidade católica responsável pelo espetáculo. Poucos eram os papéis restantes para atores e o teste focava o elenco para dançar uma história que antecedia a "Paixão" em si. Por via das dúvidas, fiz. Já estava por lá. Faltava-me desejo para pertencer ao elenco, mas algo me movia a continuar por alí. O teste ocorreu. Passei. Dias depois, já me encontrava à dar pulos e jogar braços numa corrida coreografia.

Aquilo estava me custando caro. As manhãs de domingo eram ocupadas pelos incessantes ensaios e conseqüentemente, os sábados a noite também. Paralelo a tudo, comecei a sentir de início um vazio que precisava ser ocupado urgentemente.

Longe de mim qualquer crise existencial. Sempre fui centrado e bem resolvido por demais para agora entrar em conflito por sentir-me assim, com um vazio sem explicação. Ao mesmo, os ensaios me tomavam de uma forma que cheguei a acordar querendo que a noite vinhesse o mais rápido possível e junto à todos eu pudesse sentir uma paz no meu coração. Por ironia, a história que contávamos ainda se tratava de essência, de desejo, de prazeres imediatos, e, sem muita formalidade, toda minha técnica, toda minha preocupação com o meu ego artista, se foram, e o que alí eu ilustrava, alí eu sentia como se aquele vazio precisasse ser descrito, colocado para fora.

Por alguns momentos, pus-me a rir. Nunca acreditei em transformações promovidas pela Igreja em si. Mas alí eu descobri que isso, na verdade, é o de menos, e que eu precisava, a qualquer custo, viver aquilo. Por muitas vezes, cheguei aos ensaios dividido, com dúvidas que precisavam urgentemente de resposta, visto que nunca fizeram parte de mim. O próprio fato de estar dentro de uma instituição religiosa me incomodava, visto que uma crosta de alguns preconceitos ainda me era pertencida. E alguém, parecendo tudo adivinhar, soltava respostas ao ar. Como se eu as houvesse realmente pedido. Orações, que antes para mim não passavam de um culto superficial, agora me tocavam de uma maneira que preenchiam por alguns instantes o vazio que eu guardava aqui dentro.

Não que eu tenha mudado, que eu tenha me convertido ou abandonado todos os prazeres carnais.Eles também me fazem bem. Minha essência, acredito, sempre foi essa. Mas pude, com o processo, aprender que acima deles há um mundo infinitamente maior e que pode, sem dúvidas, me tornar completo.
Hoje, quarta-feira, aguardo como nunca a estréia de um espetáculo. Brincadeira. Já tive projetos de responsabilidade inteiramente minha ou de infinita participação e preocupação para mim, mas hoje, a responsabilidade que sinto, é para com minha essência, é para com as energias que eu quero vibrar. No primeiro domingo de ensaio, machuquei a garganta. Domingo retrasado, lesei o calcanhar. Domingo passado, fraturei o dedo midinho. Me pus a pensar o porquê de tais problemas, logo eu que preciso demais viver tudo isso. E compreendi que os mesmos não pagam um décimo do crescimento que hoje recebo. Segunda, por palavras soltas, alguém, tocando no gesso, me falou - "É pra mostrar que você é muito mais que isso..." - e isso, para mim, valeu todo o resto.

A mudança que hoje sinto em meu coração não foi instantânea nem fácil. Custou-me melancolia, falta de paciência e imcompreensão por muitos momentos, mas foi dentro deles que eu pude me olhar no espelho e perguntar o que estava errado, onde eu estava errando, e que se tudo que eu tinha para mim era esse corpo de pouco menos de 60 quilos, e ainda mais, se ela seria meu para sempre.

Meu coração, hoje, enche-se de alegria, ao saber que sou mais, e ainda melhor. Que ao meu redor fitas e fitas de amor me envolvem. O amor de meus pais, familiares, o amor de meus amigos, o amor dos que me querem bem, e um amor espiritual tão intenso, que me deu todos os amores antes ditos como intermédio de sua grandeza.

5 comentários:

helmercia disse...

A essêmcia de suas palavras transbordam paz.
Continue assim. Mas agora sabendo que você é bem mais do que esperava.
Te conheço a pouco tempo, mais já te adimiro muito!!!

Cenildo Costa disse...

Victor,
Continue nessa descoberta.
Comigo aconteceu de forma semelhante e foi a melhor coisa que me aconteceu!
Um abraço! Shalom!

Cenildo Costa

Cris Reliê disse...

Deus nos dá de graça acima de tudo o que pedimos ou pensamos segundo seu poder que age e opera em nós. e Ele está com as mãos estendidas para nos abençoar o tempo todo. Ele sabe, Ele sente, Ele te conhece, Ele te ama!!! Ele é infinitamente maior que tudo e todos. bjus e abraços!

Pryscila disse...

Vitor
Bendito seja Deus por tudo o que Ele realiza no seu coração. Daqui por diante você não precisa mais acreditar no 'acaso' ou 'destino', você agora sabe que essas coisas têm outro nome, chama-se DEUS (vontade e sabedoria).

Shalom
Pryscila

Gabi Magalhães disse...

Viictor, essa história me emocionou!
Fico feliz em saber que mais alguém conheceu o infinito amor de Deus. Não sei se está lembrado de mim, mas já fiz teatro com você a um tempo atrás, lá no centro experimental... sou tambem participante da comunidade católica shalom e hoje, após ler esse lindo testemunho (por mais que vc nao considere, rs) sinto-me renovada juntamente com você.
Continue assim, um grande beijo.
Gabrielle Magalhães